Marcelo Soares
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Os Contornos Nordestinos da Música
Por Pilar Roca Escalante

As imagens caem do lápis e ascendem pelo buril de Marcelo Soares como lampejos de uma mente entupida de estrelas. Nascido em Olinda, perto de Recife em Pernambuco, Marcelo cresceu acompanhando o pai de ele pelas feiras da região. O pai não era um pai qualquer, era um o “poeta-repórter”. Dele recebeu a arte de transpor em figuras a voz alegre e sofrida da alma nordestina.
Marcelo não estava quando fomos conhecê-lo, “Ele fora pro Rio, está ministrando um curso de xilogravura”, disse Dinah, a sua esposa, que nos recebe na porta da casa iluminada e espaçosa. Situada no alto de uma subida íngreme, as suas paredes e janelas parecem se debruçar sem noção do perigo sobre a planície de Timbaúba. Ainda estamos sob o espírito de sossego que tinha se apossado de nós na singela entrada da cidade. Olhando desde aquela altura, permanecia a sensação de ainda estar rodando pela estrada fina e estreita acompanhada nas suas margens por fileiras de árvores esguias. Depois daquele abraço apertado desembocamos no centro amplo e diáfano do centro urbano,aonde os prédios e as ruas iam se distribuindo como se fossem ordenados a régua. “Foi fácil encontrar o lugar?” perguntou Dinha. “Foi! era só olhar para cima!”, respondemos ambas, sorrindo.

Perambulamos pelo ateliê conduzidas pelas explanações da Dinah sobre o processo de elaboração das xilogravuras do Marcelo. As obras se mostram desde acima da mesa e desde os armários, tanto na matriz em madeira quantoestampadas no papel, já seja preto no branco, já seja nas cores básicas do pastel que permitem a tinta da xilogravura. Elas representam as personagens da vida laboriosa, corriqueira e festiva de uma cidadezinha do interior com os quais o cordel tece as suas estórias. Nas suas obras são reproduzidas as imagens dos sonse da vida do Nordeste que lutam para sobreviver entre Deus e o diabo, entre a simplicidade e a sabedoria. Com elas, Marcelo perfila a vida do interior do país habitado por corpos concentrados na sua função. Ali encontramos a frevo mulher, o tocador de pífano ou a sanfoneira moldados pelas vestes do cangaço.Surgem as rendeiras, o lambe-lambe (retratista de rua), o São Franciscocircunvalado de pombos e os violeiros repentistas que, a ritmo de cavalgada,competem entre si. Mas também inclui os protagonistas imaginados da espiritualidade nordestina, como o pavão misterioso ou o cavalo de São Jorge.Todos eles narram uma visão de mundo nascida de uma mitologia atravessada pelo indígena, pelo africado ou pela literatura religiosa vinda de Portugal, como o dança meu boi, ou o boi bumba porque o mito recebe tantos nomes como os diferentes lugares inventaram maneiras de narrá-lo.
Eu só fui conhecer Marcelo Soares algum tempo depois, em João Pessoa, quando o vi sentado na praza principal do Centro de Letras da minha universidade uma manhã estranhamente calma e silenciosa. Havia um evento de literatura de cordel. Ele se inscreve no grupo dos cordelistas de banca. Os cordelistas de banca demoram mais um tempinho a compor a suas sextilhas do que os céleres repentistas demoram a elaborar a suas respostas, sempre imediatas e desafiadoras, que acompanham com ritmos arrancados do violão.
Mas, a tradição narrativa de Soares é uma transposição do romanceiro medieval que usava verso curto com rima pegadiça para divulgar os fatos vindos da fronteira. O Nordeste era a fronteira para o sul, a terra ignota que crescia a fogo e faca, mas ainda com espaço para a ternura que vemos nas suas formas arredondadas. A imagem era música ligada à palavra sonora e a palavra em Marcelo Soares busca se realizar numa imagem que a sublime. O Marcelo vive fascinado pelas vestes do cangaço, aliás, ele próprio já é um protagonista das suas gravuras.



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